Durante alguns meses, me é desconfortável pensar na imagem de Kowalski e na nossa casa como a sua grande obra, que é aquilo que seus amigos dizem ou provavelmente pensam quando lamentam a sua morte, mas então reconfortados percebem que Kowalski se deixa em paredes e curvas tão resistentes e eternas como essas. É claro que estão assim excluindo qualquer via expressa que decida passar por aqui, qualquer falência que então obrigaria a venda do terreno para a construção de um edifício, ou mesmo qualquer mudança de valores, desejo de mudar para o frio, a montanha, para o mar, um incêndio devastador e incontrolável, uma guerra feita de bombardear casas da classe média, enfim, são muitas as possibilidades de que esta casa um dia desapareça, mas partindo da negação de tudo isso, deixar idéias em concreto parece ser um jeito insistente de ficar. Digo isso dentro de um raciocínio simplista e me atendo à durabilidade dos materiais. Comparo portanto com papel ou com tinta ou com tecido e penso: feliz quem morre arquiteto.
Carol Bensimon, Pó de Parede