M.

brazilian: translator, proto-filmmaker, pseudo-writer. non-practsing journalist, amateur photographer and tennis player wannabe.
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Durante alguns meses, me é desconfortável pensar na imagem de Kowalski e na nossa casa como a sua grande obra, que é aquilo que seus amigos dizem ou provavelmente pensam quando lamentam a sua morte, mas então reconfortados percebem que Kowalski se deixa em paredes e curvas tão resistentes e eternas como essas. É claro que estão assim excluindo qualquer via expressa que decida passar por aqui, qualquer falência que então obrigaria a venda do terreno para a construção de um edifício, ou mesmo qualquer mudança de valores, desejo de mudar para o frio, a montanha, para o mar, um incêndio devastador e incontrolável, uma guerra feita de bombardear casas da classe média, enfim, são muitas as possibilidades de que esta casa um dia desapareça, mas partindo da negação de tudo isso, deixar idéias em concreto parece ser um jeito insistente de ficar. Digo isso dentro de um raciocínio simplista e me atendo à durabilidade dos materiais. Comparo portanto com papel ou com tinta ou com tecido e penso: feliz quem morre arquiteto.

Carol Bensimon, Pó de Parede


E na gaveta, o Novo Testamento. Nenhuma novidade até aqui. Essa coisa louca de colocarem um Novo Testamento em todos os quartos do mundo, como se fosse natural que hotéis nos enlouquecessem a ponto de virarmos fanáticos religiosos de uma hora para outra. Talvez fosse verdade. Pelo menos quando se está há três meses num hotel. Talvez por isso eu tenha aberto o Novo Testamento, para rir um pouco lembrando as aulas de catequese quando então vi que alguém rasgara um pedaço do Evangelho de João. Era certo que virara um baseado. Dava para ver pelo tamanho, e porque era um retângulo. Podem achar que já estou um pouco velho para ficar sorrindo com as transgressões alheias, mas eram essas coisas que me faziam simpatizar com a humanidade.

Carol Bensimon, Pó de Parede


Os amigos que eventualmente faço só duram até que suas famílias percebam o quanto somos estranhos, eu, meu pai, minha mãe e minha casa, por isso nos recreios eu fico sozinha com o meu walkman, sentada e marcando o ritmo com o pé, de preferência onde não me surpreendam com a minha solidão.

Carol Bensimon, Pó de Parede


Dona Yeda, por exemplo, com seus vestidos floreados como toalhas de mesa. Sua pele enrugada pra burro faz a gente achar que durante toda a vida, a longa vida, ela fez um milhão de caretas que, sem terem para onde ir, ficaram ali pelas dobras. (…) Anda aqui pela frente indo até o mercado ou à farmácia, e as bolinhas pretas dos olhos parecem decididas a pular o nosso muro e conferir o que é mesmo que se passa aqui dentro. (…) E além do mais sempre Dona Yeda com aquele jeito de quem poderia ter uma surpresa vinda da Caixa a qualquer hora, preparada para tomar um susto e ter que dar uns passos para trás ou se proteger com a pequena bolsa ridícula ou apertar na palma da mão o dinheiro todo dobradinho que leva para o mercado. A velha adoraria por exemplo ver uma piano de cauda sendo jogado pela janela e indo se espatifar na calçada com mil notas sobrepostas contando a nossa desgraça.

Carol Bensimon, Pó de Parede


O pai tinha idéias no jardim. Por exemplo, de fazer um chili tão forte que teríamos um balde d’água em cima da mesa do jantar, disse ele rindo. Veio do jardim com isso na cabeça. Senti na hora que chili tinha alguma coisa a ver com o passado dele e da mãe. Ficaram se olhando. Um para dentro do outro. Meu pai sentou no sofá com a manta de lhamas bordadas. Minha mãe estava de pé, dançou. E se olhavam. Enquanto se olhavam, era como se um monte de fiozinhos invisíveis os ligassem em suas situações secretas compartilhadas, e eu de fora.

Carol Bensimon, Pó de Parede


Aquela casa sempre fora a mais estranha e a mais polêmica de todo o bairro, e Tomás sorriu lembrando do espanto interminável dos vizinhos. Era como uma nava que houvesse decidido aterrissar no meio da cidade, ou um set montado para que se criasse de novo um filme antigo sobre o futuro.

Carol Bensimon, Pó de Parede